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Ano de revolução: Peter Sykes e ''O Comitê''

Coluna publicada em 01/04/2010

Cinema

    É interessante que “O Comitê”, primeiro filme de Peter Sykes, tenha sido lançado justamente em 1968. Um ano marcado por revolução, rebeldia, juventude, contestação e tudo aquilo mais que Bertolucci já imortalizou nas telas. O que Sykes busca com sua obra é justamente uma honesta e crítica reflexão sobre a sociedade de sua época – mas que vale para a de hoje também.

 
    De início acompanhamos um jovem que pega carona com um homem mais velho. Esse, fala muito e é entusiasta do sistema e da tradição, ou seja, um conformista – ele usa gravata. O rapaz, de calça jeans, se mantém calado e evita trocar quaisquer informações. Termina por decepar a cabeça do motorista.
 
    Seguem-se, então, divagações e teorias sobre o ato do jovem – que será julgado por um comitê de cidadãos em uma idílica casa de campo. Em meio a discussões filosóficas e psiquiátricas, Sykes estabelece diálogos que saem livres de rodeios ou papas na língua. Em “O Comitê”, a abordagem do assunto é a mais direta possível.
 
    No primeiro ato, se estabelece o conflito “jovem livre” versus “sociedade burocrata”. Com a chegada do referido comitê, fica ainda mais escancarada a visão: quem vai julgar o crime do jovem são pessoas que não possuem o menor interesse na questão: estão ali apenas para beber e jogar bridge. Aliás, o próprio prólogo do filme anuncia que os homens passam mais tempo realizando essas atividades do que tentando solucionar problemas políticos.
 
    Mas o mais interessante de “O Comitê” – e volto a falar disso – é a forma direta na qual o assunto é abordado. O roteiro, assinado pelo próprio Sykes e pelo economista Max Steuer, ao chegar em seu ato final, não se vale de subtextos, metáforas ou sutilezas. Tudo é dito de maneira rápida – e, embora filosófica, é também clara e acadêmica. Salvo poucas passagens de psicodelia experimental, apenas expõe-se teses e debate-se a respeito dessas. Um tanto ingênuo, é verdade, mas funcional. E algo que dificilmente ocorreria no cinema de hoje, sob pena de ser taxado de uma obra pobre e apelativa.
 
    Não por acaso, o jovem protagonista é interpretado por Paul Jones, da banda Manfred Mann: roqueiros costumam ser símbolo da juventude. E, se não bastasse, Pink Floyd compõe a trilha, que conta também com a presença de The Crazy World of Arthur Brown. Ambas, bandas em total sintonia com a mensagem contestadora do filme.
 
    Sobra ainda a firme direção de Skyes, tanto no trabalho com os atores quanto em enquadramentos e movimentos de câmera. Sem abrir mão de experimentações, o diretor cria quadros fantásticos, apoiado na belíssima fotografia preto-e-branco do então iniciante Ian Wilson.
 
    Mais interessante do que assistir “O Comitê” durante o revolucionário 1968 é vê-lo hoje. Uma juventude que diz não ter pelo o que lutar, que pode tudo – e, portanto, não pode nada – passagens como a abaixo ganham outra dimensão.
 
“O que me interessa na autoridade é a falsidade. O que me interessa na rejeição à autoridade é a falsidade.”
 
Isso diz muito.
 
 
* * * * (The Committee, 1968, Inglaterra)
Dir: Peter Sykes
 
Por Caio Sehbe, Márcio Reolon e equipe MovieArtMaker

 

Caio Sehbe - caiosehbe@yahoo.com.br  - 51 7813 2094 e 33811317

*Experiente em planejamento estratégico de captação financeira para projetos que sejam capacitados ou não pelas leis do AUDIVISUAL 8685/93, ROUANET 9313/91, LIC-RS, com conhecimento das leis de incentivo fiscal. Alguns dos filmes que trabalhou na captação financeira: "O QUATRILHO", "ZICO O REI ARTHUR", "BELA DONA", "BOSSA NOVA", "A PAIXÃO DE JACOBINA" entre outros.

 

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